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ZÉ DE MARIA

Agora vai o “Sinhô Amado”.
disse Elesbão, um caboclo desdentado,”puxando” a reza pelo morto, que estava estirado sobre a mesa, tendo quatro velas em torno.
Com a voz desafinada, encumpridava muito as palavras e muito mais ainda o beiço.
“O meu Sinhô Amado
Meu sumo e único bem,
Perdoa os pecados dele,
E os meu, Sinhô, também...”
E o coro com essa entonação caipira, repetia o último verso da nênia dolorida, que se perdia lá na baixada, no marulhar do Tibagi.
A caboclada não estava satisfeita com o “puxadô” Elesbão.
Justamente o melhor “cantadô” de rezas de defuntos é que estava ali sendo velado.
- Quá, cantadô pra chegá nos pé de nhô Thomé, num vai te mais aqui im Jataí, num é nhá Delia?
“Nhá Delia”, a dona da casa, exercia ainda desde os tempos do Império o cargo de professora e no lugar. Sua casa era o refúgio da caboclada. Podia alguém morrer onde estivesse, mas viria, por certo, a fim de ser enterrado no “sagrado”, isto é,  no Cemitério de Jataí.
Se houvesse um defunto em casa de “nhá” Délia, o morto que chegasse era “guardado” na do barbeiro Elias, um sírio que se acaipirou, adotando todos os hábitos dos sertanejos.
A dona da casa, atendendo ao apelo que lhe fizeram, esclareceu:
- Tem um outro que muitos de vocês não viram ainda, que canta bem melhor do que cantava “nhô” Tomé.
- Quem é?
- “O Zé Maria”, pois.
Todos se mostraram interessados. Houve um até que chegou a fazer o sinal da cruz.
- Mecê viu ele, nhá Delia?
A velha mestra fez um muxoxo, enquanto mandava servir mais uma rodada de quentão aos presentes.
-Quantos tem aqui que conheceram ele. Só vocês moços é que não o viram ainda. Não se sabe porque ele não tem aparecido. Meu avô quando deixou nós virmos; para cá, lá de Mato Grosso...
- O avô da senhora era o Solano Lopes, não era?
- Não senhor, meu avô era o “Guia Lopes”, brasileiro e caboclo que nem vocês. Ele brilhou na guerra contra o Paraguai. Quem me fez essa pergunta ou se esqueceu do que lhe ensinei em pequeno ou fugiu da escola, não aprendendo nada.
Os caboclos sorriram gozando com a piada da velha mestra.
- Então, nhá Delia, conta pra nóis qualquer cousa do “Zé de Maria”.
Elesbão que naufragara como “cantadô”, intrometeu-se na prosa.
- Deixa qui eu conto – depois, caindo em si, receando novo malogro, precaveu-se: - Onde eu errá, nhá Delia imenda.
O pessoal o que queria era “causo”, viesse do Elesbão ou da velha mestra. A chuva agora apertara, caindo torrencialmente. O caboclo começou:
- O “Zé de Maria” é um caboclo que nem nóis e anda pro sertão, fais bem uns quatrocentos anos...
- Ara. Isso tamém é dimais.
Exclamou, interrompendo-o um dos presentes.
- Num é verdade, nhá Delia? Perguntou Elesbão.
- É sim, é o que dizem...
Elesbão vitorioso, olhava superiormente para os presentes, pois a palavra da anciã era lei. E continuou...
- Puis é. Mermo cum essa idade ele é um moço destorcido, aparecendo sempre que argúem percisa dele. Acode tanto os índio cumo nóis cristom. Uma veiz o cumpadre Eliziario i mais o nego Tião, que tinham ido no Panema leva um batelão de rapadura do Engenho de Ferro, vinham subino o Tibagi, carregado com matimento. Pararo na corredera e iam faze fogo pra temperá o virado, mai num foi priciso puis incontraro ele na bera do rio, cuma panelinha cheinha dicumê. Tava suzinho i cunvidô eis pra armoçá. Num vê qui eis cumero di si fartá i o “Zé de Maria” inda deu  pra eles virado prá jantá. Dispois si dispidiu-se cum louvado seja Deus, dizendo qui nu outro dia tinha qui tá aqui em Jataí, pra sisti à reza de sexta-feira santa, do Frei Timóteo. Dispois que ele foi simbora é qui us dois si lembraro que era o “Zé de Maria”, puis cuma é que ainda fartando oito légua prá chegá aqui, eli dizia qui vinha nu otro dia. Diz qui condo a gente vê ele, não pensa quem é. Só dispois qui vai simbora é qui a gente fica sabendo qui é eli.
Nessa hora, bateram à porta, pois a casa tinha sido fechada devido a tempestade. Abriram-na e um moço moreno, de olhos negros e brilhantes e cabelos em caracóis pediu licença para entrar.
Deram-lhe uma cadeira e ele quis saber porque estavam fazendo o quarto, assim silenciosos. Quando foi informado do motivo, ofereceu-se para puxar a nênia. E com voz melodiosa, com o primeiro verso da “incelência”:
“Uma pancada de sino,
Que o nosso irmão morreu...”
Findas as sete “incelências”, o moço levantou-se, despedindo-se dizendo precisar viajar ainda muitas léguas nessa madrugada. Quando ele saiu Elesbão chamou a atenção dos companheiros:
- Oceis repararo qui essi homi chegou na chuva i num tava moiado?
Os caboclos se entreolharam, alguns já persignando-se.
“Nhá Delia” caiu em si.
- Meu Deus, como é que eu não reconheci o “Zé de Maria”, o caboclo bom do sertão. Ele veio qui pra dizer que não estamos rezando como devemos pela alma de “nhô Tomé”, o homem que mais rezou pros mortos destas bandas.
E todos começaram a cantar os hinos dos mortos sertanejos, com um entusiasmo que até então não tinham demonstrado.

Transcrito do Conto publicado no jornal “O Tempo” da capital de São Paulo no dia 21 de maio de 1954 – autoria de Luiz Franceschini.

Este conto é uma homenagem à Professora Adélia Antunes Lopes.