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ZÉ DE MARIA
Transcrito do Conto publicado no jornal “O Tempo” da capital de São Paulo no dia 21 de maio de 1954 – autoria de Luiz Franceschini. Este conto é uma homenagem à Professora Adélia Antunes Lopes.
disse Elesbão, um caboclo desdentado,”puxando” a reza pelo morto, que estava estirado sobre a mesa, tendo quatro velas em torno.
Com a voz desafinada, encumpridava muito as palavras e muito mais ainda o beiço.
“O meu Sinhô Amado
Meu sumo e único bem,
Perdoa os pecados dele,
E os meu, Sinhô, também...”
E o coro com essa entonação caipira, repetia o último verso da nênia dolorida, que se perdia lá na baixada, no marulhar do Tibagi.
A caboclada não estava satisfeita com o “puxadô” Elesbão.
Justamente o melhor “cantadô” de rezas de defuntos é que estava ali sendo velado.
- Quá, cantadô pra chegá nos pé de nhô Thomé, num vai te mais aqui im Jataí, num é nhá Delia?
“Nhá Delia”, a dona da casa, exercia ainda desde os tempos do Império o cargo de professora e no lugar. Sua casa era o refúgio da caboclada. Podia alguém morrer onde estivesse, mas viria, por certo, a fim de ser enterrado no “sagrado”, isto é, no Cemitério de Jataí.
Se houvesse um defunto em casa de “nhá” Délia, o morto que chegasse era “guardado” na do barbeiro Elias, um sírio que se acaipirou, adotando todos os hábitos dos sertanejos.
A dona da casa, atendendo ao apelo que lhe fizeram, esclareceu:
- Tem um outro que muitos de vocês não viram ainda, que canta bem melhor do que cantava “nhô” Tomé.
- Quem é?
- “O Zé Maria”, pois.
Todos se mostraram interessados. Houve um até que chegou a fazer o sinal da cruz.
- Mecê viu ele, nhá Delia?
A velha mestra fez um muxoxo, enquanto mandava servir mais uma rodada de quentão aos presentes.
-Quantos tem aqui que conheceram ele. Só vocês moços é que não o viram ainda. Não se sabe porque ele não tem aparecido. Meu avô quando deixou nós virmos; para cá, lá de Mato Grosso...
- O avô da senhora era o Solano Lopes, não era?
- Não senhor, meu avô era o “Guia Lopes”, brasileiro e caboclo que nem vocês. Ele brilhou na guerra contra o Paraguai. Quem me fez essa pergunta ou se esqueceu do que lhe ensinei em pequeno ou fugiu da escola, não aprendendo nada.
Os caboclos sorriram gozando com a piada da velha mestra.
- Então, nhá Delia, conta pra nóis qualquer cousa do “Zé de Maria”.
Elesbão que naufragara como “cantadô”, intrometeu-se na prosa.
- Deixa qui eu conto – depois, caindo em si, receando novo malogro, precaveu-se: - Onde eu errá, nhá Delia imenda.
O pessoal o que queria era “causo”, viesse do Elesbão ou da velha mestra. A chuva agora apertara, caindo torrencialmente. O caboclo começou:
- O “Zé de Maria” é um caboclo que nem nóis e anda pro sertão, fais bem uns quatrocentos anos...
- Ara. Isso tamém é dimais.
Exclamou, interrompendo-o um dos presentes.
- Num é verdade, nhá Delia? Perguntou Elesbão.
- É sim, é o que dizem...
Elesbão vitorioso, olhava superiormente para os presentes, pois a palavra da anciã era lei. E continuou...
- Puis é. Mermo cum essa idade ele é um moço destorcido, aparecendo sempre que argúem percisa dele. Acode tanto os índio cumo nóis cristom. Uma veiz o cumpadre Eliziario i mais o nego Tião, que tinham ido no Panema leva um batelão de rapadura do Engenho de Ferro, vinham subino o Tibagi, carregado com matimento. Pararo na corredera e iam faze fogo pra temperá o virado, mai num foi priciso puis incontraro ele na bera do rio, cuma panelinha cheinha dicumê. Tava suzinho i cunvidô eis pra armoçá. Num vê qui eis cumero di si fartá i o “Zé de Maria” inda deu pra eles virado prá jantá. Dispois si dispidiu-se cum louvado seja Deus, dizendo qui nu outro dia tinha qui tá aqui em Jataí, pra sisti à reza de sexta-feira santa, do Frei Timóteo. Dispois que ele foi simbora é qui us dois si lembraro que era o “Zé de Maria”, puis cuma é que ainda fartando oito légua prá chegá aqui, eli dizia qui vinha nu otro dia. Diz qui condo a gente vê ele, não pensa quem é. Só dispois qui vai simbora é qui a gente fica sabendo qui é eli.
Nessa hora, bateram à porta, pois a casa tinha sido fechada devido a tempestade. Abriram-na e um moço moreno, de olhos negros e brilhantes e cabelos em caracóis pediu licença para entrar.
Deram-lhe uma cadeira e ele quis saber porque estavam fazendo o quarto, assim silenciosos. Quando foi informado do motivo, ofereceu-se para puxar a nênia. E com voz melodiosa, com o primeiro verso da “incelência”:
“Uma pancada de sino,
Que o nosso irmão morreu...”
Findas as sete “incelências”, o moço levantou-se, despedindo-se dizendo precisar viajar ainda muitas léguas nessa madrugada. Quando ele saiu Elesbão chamou a atenção dos companheiros:
- Oceis repararo qui essi homi chegou na chuva i num tava moiado?
Os caboclos se entreolharam, alguns já persignando-se.
“Nhá Delia” caiu em si.
- Meu Deus, como é que eu não reconheci o “Zé de Maria”, o caboclo bom do sertão. Ele veio qui pra dizer que não estamos rezando como devemos pela alma de “nhô Tomé”, o homem que mais rezou pros mortos destas bandas.
E todos começaram a cantar os hinos dos mortos sertanejos, com um entusiasmo que até então não tinham demonstrado.
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